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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Exposição de Bruno Faria tematiza um dos mais importantes gêneros da História da Arte: a paisagem


O Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 – Centro – fone: (85) 3464.3108) abrirá na próxima terça-feira, 6, às 18 horas, a exposição individual “Point de Vue”, de Bruno Faria – artista pernambucano radicado em Paris (França) –, com curadoria de Marisa Mokarzel (mestre em História e Crítica de Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará). Gratuita ao público, a mostra ficará em cartaz até o próximo dia 07 de maio (horários de visitação: terça-feira a sábado, de 10h às 20h; e aos domingos, de 10h às 18h).
A exposição “Point de Vue” tematiza um dos mais importantes gêneros da história da arte: a paisagem. Os quatro trabalhos apresentados abordam esse histórico tema em diferentes formas e mídias, apresentando questões que envolvem imagem, estética, política e o olhar do homem. Os assuntos envolvem a paisagem natural ou interferências relacionadas à arquitetura e ao próprio espaço urbano.

Point de Vue (texto da curadora Marisa Mokarzel)
Coloca-se a pintura em discussão sem que ela mesma se faça presente, a não ser por meio daquilo que a estrutura, o que está por trás: o desenho. A cor invisível ou coadjuvante – elemento pictórico fundamental permanece velado. Seria, neste caso, apenas o viés de uma aparência, o propósito de “mostrar o que se vê”. O que se vê é o que é ou o simulacro inesgotável de sucessão de imagens?
Aonde está a paisagem? Sob que ponto de vista Bruno Faria a devolve como representação ou pura ironia de quem percebe o mundo a partir de uma postura crítica, imerso à arte, à vida? A perspectiva é um ponto de vista, um ângulo do olhar, uma ilusão ordenada entre o que se sabe e o que se vê. “Pela janela pintada da tela ilusionista, vê-se o que é preciso ver: a natureza das coisas mostradas em sua vinculação”. Cauquelin assim considera: “o que se vê não são as coisas, isoladas, mas o elo entre elas, ou seja, a paisagem”.
Em que lugar localiza-se o olhar do artista? De onde fala? De pontos diversos. São quatro obras, quatro pontos de vista, quatro paisagens. Nenhuma isolada. Em suas diferenças formam elos, articulam-se, promovem uma grande extensão de imagens e idéias, um panorama em linguagens distintas: desenho, vídeo, instalação, performance. Tempo e espaço redimensionam-se no campo da arte, da cultura, da subjetividade.
Bruno cria desenhos que são realizados por um paisagista. A mão que movimenta o traço não é a do artista, mas sim o pensamento, a construção da idéia que associa a paisagem antiga à notícia veiculada no “Diário de Pernambuco”. Uma quase-história dá conta de arquivos e registros de décadas e décadas anteriores. Surgem um passado aprisionado em molduras, notícias de antes, desenho recente, solidão imaginada, vivida. Ficção ou realidade? Qual tempo importa? Que ato permanece ou desfaz-se na memória?
Um novo ângulo pode impor-se antes que o esquecimento ou a lembrança perdure. Um Panorama reorganiza-se, constrói-se com rótulos de embalagens, colecionados, recolhidos no dia-a-dia. A composição gráfica, os vestígios permanecem, fornecendo a pista de uma paisagem artificial, associada ao consumo, criada no universo publicitário. Mas um papel milimetrado, adicionado pelo artista, interfere no espaço, promove apagamentos sutis, permite que um ruído redimensione o cenário infinito e estenda-se na linha do horizonte.
De paisagem em paisagem, o espectador encontra a si mesmo para perder-se logo depois. Fixo ou em movimento uma nova paisagem apresenta-se, mais adiante um novo ponto de vista emerge e, inesperadamente, deixa-se consumir pelo fluxo luminoso. A estática imagem urbana ilude os olhos que nela se detém, mas bastam alguns segundos para que o fogo desfaça a cena citadina e os prédios diluam-se revelando a fotografia presa à parede. Intervenção do artista ou daquele que constrói, destrói a urbe?
A relação entre espaço expositivo e cidade é revista pelo artista que propõe um diálogo entre o fora e o dentro, entre paisagens. A rua, como zona de experimentação, retoma a mão que desenha, oferece-se aos olhos, permite-se interpretações. De Paris, o transeunte repensa o que vê, faz presente a paisagem invisível àquele que se encontra na galeria. O desenho feito pelo anônimo observador chega por fax, une cidades distantes. Territórios tornam-se fluidos, paisagens estrangeiras misturam-se na passagem do tempo, ficam suspensas, entre lugares.
A Escola de Barbizon e os impressionistas deixaram impressos na tela as cenas francesas. No Brasil, pintores locais e estrangeiros representaram com cores o cenário brasileiro. O gênero paisagem, no entanto, já não é mais pintado por Théodore Rousseau, Claude Monet ou por Georg Grimm, nem por José Pancetti e muito menos por Guignard. A contemporaneidade se faz em outras bases, diferentes pontos de vista não conseguem abarcar a flexibilidade de territórios, as mutações culturais. Um campo artificial, simulador de realidades se impõe a cada instante, o artista organiza aparências, atento, repensa o mundo das múltiplas paisagens, das móveis e indecifráveis cartografias.