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sábado, 22 de agosto de 2020

"Mobile documentário" propõe direito a eutanásia e acesso universal a morfina

 



Lançado no YouTube, "Câncer Sem Censura" mostra a história, o dia a dia e as opiniões contundentes de um jovem com um tumor ao redor do coração


Omar Alexandre Gimenes tem 38 anos. Jovem, bonito e inteligente, ele está no corredor da morte.

Em 2018, depois de algumas sessões de quimioterapia, o ex-barman passou por uma cirurgia de peito aberto para a extração de um câncer do tamanho de uma bola de futebol americano, que envolvia seu coração e pressionava os dois pulmões, deixando-o sem fôlego até para as atividades banais do dia a dia. A operação foi malsucedida: o tumor estava tão intimamente ligado ao coração que os médicos pouco puderam fazer – rasparam o que foi possível e fecharam o imenso corte que ia do abdômen quase à altura do pescoço, transferindo para as sessões radioterapia a esperança de que o câncer pudesse ser derrotado. Mas elas também não funcionaram.

Desde então, Omar convive com a dor física do câncer e a angústia de saber que tem os dias contados – a rigor, todos temos, apenas não nos damos conta disso. Ele tem essa noção de forma muito clara, tão clara que mudou sua forma de enxergar o mundo e as relações humanas. E é assim que o tema é tratado no documentário “Câncer Sem Censura”, que expõe visceralmente a história e o dia a dia deste maranhucho (maranhense criado no Rio Grande do Sul) sem papas na língua e sem frescura para abrir o coração – neste caso, literalmente.

“A morte, para mim, é uma coisa muito natural. Viver e morrer são dois lados da mesma moeda, como o dia e a noite, o sol e a chuva, o nascer e o pôr-do-sol”, filosofa Omar, um jovem de mente aberta, adepto de filosofias orientais, que desistiu o curso de Engenharia de Minas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul depois de, segundo ele, descobrir que não era “tão inteligente quanto pensava”. “Ter a consciência verdadeira da morte é muito libertador. Estudo, carreira, fica tudo tão pequeno”, diz Omar, em um trecho do documentário.

As angústias, as alegrias, as dores, os desejos, as conquistas, as preocupações, enfim, tudo o que você sempre quis perguntar a um paciente oncológico mas nunca teve oportunidade – ou coragem para fazê-lo – são temas de dezenas de horas de gravação com o ex-barman, que não se esquiva de nenhum assunto. Morte, eutanásia, os efeitos devastadores da quimioterapia, as limitações físicas na hora do sexo, a dependência de medicação para dormir, a falta de apetite, todos esses – e outros inúmeros temas tão reais quanto pesados – são abordados com clareza e crueza, sem meias palavras, mais ou menos como fazem os médicos quando precisam dar uma notícia triste.

Ao expor as entranhas físicas e psicológicas deste fã da banda punk Ramones, que dedicou parte dos dois últimos anos a realizar um sonho dos tempos de adolescente – ter o corpo todo tatuado –, o documentário levanta o debate sobre o acesso universal à morfina no controle da dor. “Por que as pessoas precisam passar dias sem dormir, em posição fetal, praticamente inúteis, se existe morfina? Isso é muito desumano. Acho que nem em um presídio se sofre tanto”, afirma o jovem, que não mede palavras ao defender que pacientes oncológicos tenham direito a “uma eutanásia assistida”. “É a minha vida. Eu acho que tenho o direito de fazer essa escolha.”

Mas engana-se quem imagina um documentário repleto de chororôs e lamentações. O tema é pesado, sim, mas tratado com franqueza e sem lamúrias. É claro que há a emoção dos pais e da irmã, que sofrem com a possibilidade da perda de “um jovem com um futuro inteiro pela frente”, nas palavras de seu José, hoje morando em Teresina.

O documentário é um bate-papo aberto, sem censura. Ao final, o espectador sai com a impressão de que já conhecia Omar de algum lugar. Pudera: além de indicar alimentos a quem faz quimioterapia – “pasta de amendoim tem alto valor calórico e a gordura é de fácil digestão” –, o jovem mostra sua rotina de treinos na academia do bairro e, em algumas passagens, chega a contar suas aventuras sexuais durante o período de radioterapia. “Quando acabei, eu só pensava: que ganância! Pra quê? Só pra exibir pras visitas!”, diz, entre gargalhadas.

Quase inteiramente filmado com um celular e uma câmera semiprofissional – equipamentos profissionais só entraram na fase final de produção, em algumas imagens de apoio –, o documentário produzido, dirigido e roteirizado pelo jornalista Marcelo Monteiro em parceria com a publicitária Renata Mendonça preocupa-se pouco com a forma e muito com o conteúdo. Sem grandes recursos para começar as gravações e sob a incerteza de quanto tempo teriam para filmar – o caso de Omar é grave, e todos sabem desde o começo –, o trio decidiu iniciar com o que tinha em mãos, em maio de 2019: uma câmera semiprofissional Panasonic FZ-40 e um celular Samsung J7 Prime.

Em razão da definição das imagens – nem sempre com a qualidade que se esperaria de um documentário lançado em 2020 –, Monteiro brinca que o trabalho foi “pensado” para ser visto no celular. “Podemos classificá-lo como um mobile doc. Até porque, na tela pequena do celular, é mais difícil perceber as inúmeras vezes em que aparecem o tripé da câmera ou o fio do microfone de lapela”, afirma o jornalista, autor de dois livros-reportagem e com 27 anos de carreira preponderantemente na imprensa escrita.

No fim das contas, diante de conteúdos tão polêmicos e sensíveis – abordando, afinal, vida e morte –, por que se daria tanta relevância à forma? Ou, como diria Omar em outro trecho do documentário: “Tu passa a não te preocupar mais com a opinião dos outros. Na verdade, tá cagando pra opinião dos outros.”

Como se espera de um documentário, o enredo trata da vida real e, como tal, está longe de prometer ao espectador um final feliz. De toda forma, os últimos minutos do documentário são impactantes, com inesperadas reviravoltas, capazes de inspirar – como se fosse possível – ainda mais reflexões.

“As conversas com o Omar relembram que o melhor que se pode fazer na vida é estar presente. Sempre vou lembrar dele dizendo que pessoas mais velhas e doentes têm mais propensão ao que ele chama de ‘foda-se’ ativado. Ou seja, aquela liberdade/individualidade que o tempo em que vivemos insiste em diminuir”, comenta Renata. “Quase posso ouvi-lo falando que às vezes a gente pode identificar isso em pessoas tipo o cara que faz malabares no sinal, em quem rema contra a corrente, em gente de diversos locais e posições que consegue se descolar da lógica competitiva e meritocrática tão imposta atualmente.”

Na opinião do protagonista, o documentário “foi a melhor terapia que podia ter feito”. “Pra mim, o vídeo tá perfeito. Me emocionei muito. Por mais simples que tenha sido a produção, o documentário tá com muita verdade.”